As portas abrem, desces as escadas e lá está ela: inerte,
sombria, apática. Voltas, sobes as escadas, as portas fecham e lá está ela:
inerte, sombria, apática. Ela sorri, mas não é para mim, nem para qualquer um
que lá passe. Aquele sorriso que aprendeu a ser seletivo, passivo e automático
vai sempre de encontro à pessoa certa. A luz que a ilumina todo o dia é a mesma
que ilumina toda a cidade e ela assiste à sua mudança com o tempo que mais
ninguém tem.
Dobras a esquina, sobes a rua e encontras a porta por onde ela
entra para subir as escadas e se deitar por alguns minutos. As faces que a
acompanham vão mudando, mas a sua companhia é a mesma. Nisto ela volta, desce
as escadas e fecha a porta deixando atrás de si o vulto que antes lhe havia
tirado um sorriso e regressa às escadas por onde desço todos os dias.
O cigarro já faz parte da sua figura, como o de tantos
outros que enchem a cidade, contudo, o dela é um constante compasso de espera
que impede o transparecer de qualquer insegurança que possa ter. E ali permanece:
inerte, sombria, apática, mas com ar de quem é dono de si. O mesmo ar que veste
todos os dias, depois de acordar para a realidade que, embora sendo sua, não é
a que veste.
Nunca vais conhecer aquela calçada, aquelas escadas e aquela
cidade como ela conhece. Vais ve-la, como eu a vejo, mas ela não vai querer
olhar para ti, não menos do que o tempo necessário para que perceba que não
procuras o seu sorriso, nem mais do que o tempo preciso até que olhes para ela
e notes a sua presença de contornos desenhados nos dias passados por ela alí,
que são todos.
-à assimetria entre aqueles que começam o dia ao mesmo
tempo,
mas aprenderam a viver a vida de formas diferentes.

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