Avaria? Descarta. Apagou a luzinha, mas o resto funciona? Descarta. Está
riscado? Descarta. Não gostas do sabor? Descarta. Faz muito barulho? Descarta.
É muito pequeno? Descarta. Não é imediato? Descarta. Já ninguém usa? Descarta.
A cor agora é o branco? Descarta o azul, o verde, o rosa,...
O mesmo imediato que nos atrai é o mesmo que, de imediato, vem para nos criar
repulsa e fazer perspetivar o mundo da seguinte forma: se não está bom deita-se
fora e arranja-se outro.
No mundo das ofertas, os problemas passaram a ser situações que ou são
resolvidos na sua fase aguda, ou então deixam de existir, porque há sempre a
opção de substituir aquilo que está na sua origem.
Contudo, se a cada passo podemos trocar as pedras do caminho por outras que
incomodem menos, a que é que nos comprometemos? No fundo, quando decidimos
participar no mundo das ofertas, vivemos pouco mais do que da superficialidade
de tudo o que "temos", uma vez que nada é feito para manter, nenhum
problema é feito para se resolver.
Talvez possamos chamar ao mundo das ofertas o "mundo das soluções", o
qual, paradoxalmente, leva à formação de indivíduos extremamente incapacitados
de poder resolutivo. Indivíduos a quem lhes foi oferecido, à partida, um botão
de emergência onde diz "Descarta", o qual, quando pressionado, quase
de imediato faz surgir a oferta de uma solução que leva a muitas menos
necessidades de adaptação, esforço e dedicação do que a resolução dessa emergência.
Eis que esta febre do "Descarta" acabou por ir mais longe do que questões materiais.
Hoje é o dia em que se descartam pessoas e relações, e fazemo-lo com a mesma
celeridade com que se vai à loja trocar o iPhone 6 pelo 7. Deixamos de
acreditar na necessidade de manter o que quer que seja, somos pessoas que já
não precisam de nada, uma vez que têm tudo virtualmente, à distancia de um “não
quero mais”. Assim sendo, chegamos a toda uma nova e vasta gama de “Descarta”:
O António não te diz o que queres ouvir? Descarta. A Mariana não tem falado
tanto contigo? Descarta. A Sofia arranjou namorado? Descarta. O Pedro não
concorda com as tuas opiniões? Descarta. A Luísa não tem tido tempo exclusivamente
para ti? Descarta. O Manuel disse-te algo que tu não gostaste? Descarta. E assim
vai.
A efemeridade das coisas mostra-se quando as relações são possíveis com o mínimo
de contacto e quando a natureza delas é demonstrada, essencialmente, a partir
daquilo que se coloca nas redes sociais, como se fossem apenas constructos
feitos para agradar a quem vê e não a quem vive. E quando algo está mal? Carrega-se
no botão, outras opções surgem e não há necessidade de resolver, basta
descartar.
E descarta. Porque não? Há tanto.
Mas há tudo?
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