Não havia data para inícios, já que a sobriedade não era uma constante. O que contava a cada instante era o tempo, ele era de sobra e já não havia em ti lucidez para as horas.
Talvez fosses viajante eterno de onde te encontrei, embora sempre à socapa, apostaria eu. Do que imagino, as tuas infinitas viagens teriam sempre como destino algo que alguém fez levedar e a ti parar.
Eras conversador itinerante. Todos fingiam não te escutar.
Falavas do rio para o qual ela se atirou, o mesmo de onde puxaram o corpo dele para a lancha.
Querias ser alguém, dizias. Todos fingiam não te escutar.
Vias passar pela janela do metro o mundo que era de oportunidades. Talvez não para ti.
Quem inventou as oportunidades não pensou em todos. Certamente que pensou em si, nos seus filhos e nos filhos de uns tantos outros que, desde inicio, tiveram ou fizeram da vida um substrato favorável.
Não pensou nos filhos daquela senhora que se atirou ao rio, cujo pai havia feito o mesmo. Não pensou nos filhos que nascem sem substrato e que se encaminham para uma constante fuga da vida.
Quem hoje faz as oportunidades diz que pensa em todos, até financiam estes filhos destas senhoras, mas, coitados, eles não se sabem governar.
E o mudo que vias passar pela janela do metro diz que és parasita, eterno parasita no meio daqueles que são tão bons que te pagam contas, mas fingem que não te escutam.
Terminei a viagem, já ias tu, numa das tuas tentativas de fuga da vida, a cantar. No fim, recordaste o quão bom era pisar a areia do mar, a porta abriu, saí e continuou o mundo sem te escutar.
- a todos aqueles que "vivem" como parasitas sociais, toxicodependentes, alcoólicos, sem-abrigo... a estes e a tantos que, como todos, poderiam ter sido alguém, mas ninguém soube ou sabe ajudar. A todos os que são subsidiados monetariamente e não socialmente. A todos os que olhamos de lado por isso mesmo, julgando que o dinheiro é a cura.